Desconstruções de formas e valores no design
(por Sérgio Lima)
Um período de grande explosão da juventude em todos os aspectos foi a década de 60. Os jovens, influenciados pelas idéias de liberdade - "On the Road" – (título do livro de Jack Keurouac, de 1957) iniciava a luta de oposição à sociedade de consumo vigente. O movimento, que nos 50 vivia recluso nos EUA, passou a caminhar pelas ruas nos anos 60 e influenciaria novas mudanças de comportamento, como a contracultura e o pacifismo do final da década. Inicia-se neste período uma nova caminhada com a necessidade de ir contra o estilo existente e caminhar em busca de um novo reposicionamento estético. Os artistas estavam em busca de novas linguagens desprezando as leituras estéticas que reduzia uma obra a adjetivos singulares e reducionistas, que era uma grande característica do modernismo. Nomes de grande importância na construção da nova linguagem do designer, buscavam uma renovação através principalmente da desconstrução das formas e valores. Entre estes artistas estavam Gaetano Pesce, e Alessandro Mendini . Cada um com sua forma de expressar, buscavam novas linguagens visuais para transpor em suas obras. Gaetano Pesce, com experiência em pintura, escultura, desenho, teatro, cinema e arquitetura era um homem único, que misturava o seu talento, com sua visão louvável em arte, fazendo com que seus objetos estivessem voltados para o consumo rápido, feitos em larga escala, quase sempre pouco duráveis, expressando um protesto direto contra a racionalidade dos valores modernistas. Os preceitos da gestalt são descontruidos por Pesce onde ele subverte a ordem da padronização do moderno, fugindo da austeridade anterior, descontruindo a forma sóbria, as linhas retas e recriando formas que proporcionasse descontração, relaxamento e informalidade,utilizando sempre o seu talento para questionar a estética moderna sendo muito irreverente em suas criações quando colocou o movimento como princípio estruturador das suas peças.
Alessandro Mendini utiliza como base em seus trabalhos , o “Re-Design”, que consiste em transformar objetos do dia a dia com alterações sutis e críticas, tornando os mesmos materiais de reflexão.
Peças de mobiliário típicas dos anos 50, antigas cadeiras, entre outros exemplos, são incorporadas por um novo estilo decorativo.As ornamentações não mudam a realidade estrutural do objeto, que se mantém apesar da alteração na aparência. Mendini em um dos seis trabalhos ironiza a cadeira Thonet e a cadeira Wassily, criando uma espécie de caricaturas das mesmas, onde elas são recriadas na desconstrução do design moderno. Gaetano Pesce em seus trabalhos utiliza a quebra das linhas retas, o que abandona radicalmente a simetria e a proporcionalidade que eram peculiar do modernismo, enquanto Mendini faz uma reutilização destas mesmas retas como referência das suas criações para afirmar o seu ponto de vista sobre a nova releitura do design, o que passaria a ser chamado por ele de o “re-design”. A cadeira Thonet, colorida e assimétrica, insere em sua estrutura elementos metálicos, já na cadeira Wassily, a obra é reclassificada deformando as linhas retas das faixas de couro liso e substituindo-os por manchas totalmente irregulares, desprezando a simetria e a rigidez estrutural que compunha a obra.
Como cita Rafael Cardoso em seu texto - O design gráfico e sua história “Várias dessas vanguardas apostaram, desde o início, na importância da indústria, das máquinas e das novas tecnologias para a transformação da arte e da sociedade e, por conseguinte, abraçaram o cinema e o design como meios de expressão em que a criação estava visceralmente ligada a processos industriais de produção”.
A busca incessante por novos conceitos,faz com que Pesce e Mendini tracem uma mudança no pensamento estético e uma reflexão na função do designer. Rafael Cardoso complementa em seu texto: “Para o design gráfico, o símbolo dos novos tempos está na imensa pluralidade e fragmentação de meios e mídias”.
Estas novas formas de expressão e até mesmo a reestruturação do pensamento estético nos leva a refletir o que Luis Nicolau Parés* cita em seu artigo “Se as imagens são produzidas com a necessária eficiência visual para destacar elementos úteis à reflexão e se explicitam os modos de produção empregados, a documentação visual pode constituir-se numa “meta-realidade”, acessível e permanente, a partir e em torno da qual se desenvolva o exercício interpretativo”, sendo estas novas formas de expressão, questionamentos e novas aplicações tecnológicas uma grande oportunidade de interpretar, analisar, comparar e sentir, oportunizando a possibilidade disseminativa de novas formas de expressão.
Referências bibliográficas
(*) Luis Nicolau Parés é pesquisador Visitante no PPCS da FFCH, UFBA, PhD em Londres com a tese The phenomenology of spirit possession in the Tambor de Mina: an ethographic and audio-visual study. London, SOAS, 1997.
http://nautilus.fis.uc.pt/cec/designintro/posmod.html
HOLLIS, Richard. Design Gráfico: uma história concisa. São Paulo: Ed. Martins Fontes.
http://angelaladeiro.blogspot.com/2007/10/alessandro-mendini.html#links
CARDOSO, Rafael. O design gráfico e sua história
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